A seis meses das eleições presidenciais, as cenas de destruição na França evocavam uma zona de guerra e eram o retrato da fragilidade do Estado sob o comando de Emmanuel Macron.
O apelo de Macron — “Quem destruiu deve pagar; quem saqueou, deve restituir” — pareceu diluir-se na apatia, enquanto a inação do governo alimentava críticas, e a oposição, em uníssono, exigia a renúncia do ministro do Interior, Laurent Nuñez.
Com os índices de aprovação do presidente em evaporação, na média de 15%, cresce o risco de uma conflagração sem precedentes no período pré-eleitoral, como observou Frédéric Dabi, diretor do Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop).
“Coexistem dois cenários: uma arena política onde os candidatos debatem e tentam persuadir, e uma arena social que os ignora completamente por diversas razões”, ponderou ele, em entrevista à agência de notícias AFP.
A candidata da Reunião Nacional apoiou os revoltosos com o custo de vida, prometendo “libertar os franceses das políticas tóxicas de Macron” e protegê-los da violência da extrema esquerda. Le Pen, contudo, passou ao largo das propostas de austeridade de seu partido, consideradas bem mais radicais do que as do presidente.
Antes que assentasse a poeira dos saques e incêndios de sábado, as acusações entre o governo e a extrema esquerda ampliaram o volume. O líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, condenou as pilhagens e a violência, esquivando-se das acusações de responsabilidade pelo caos, apontadas pelo premiê, Sébastien Lecornu.
De acordo com as pesquisas, o candidato da extrema esquerda está empatado com o candidato de centro-esquerda Raphael Glucksmann e o de centro-direita Edouard Philippe na disputa pela vaga do segundo turno nas eleições de maio. Mélenchon acusou Macron “de deixar a situação se deteriorar”, sem oferecer soluções para apaziguar a indignação.
Como observou o diretor do Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop), Frédéric Dabi, o país não teve tempo de se recuperar de incêndios, seca, aumento vertiginoso dos combustíveis e das sucessivas crises deflagradas nos últimos meses.